Paleoembarcações de Caraíva
Estruturas parcialmente enterradas investigadas no território da Costa do Descobrimento.

A arqueologia de Neimar Alves Barroso nasce do encontro entre matéria, paisagem, memória, imagem, cinema, tecnologia, permacultura e cosmologia.
Antes de ser uma pergunta científica, esta foi uma pergunta arqueológica.
Desde a infância, Neimar Alves Barroso carregava uma questão aparentemente simples, mas que posteriormente atravessaria sua pesquisa: como o universo se constitui?
A pergunta deslocava o olhar do objeto pronto para o processo de constituição. Em vez de procurar somente aquilo que já está diante do observador, a investigação passa a perguntar quais relações produziram aquilo que hoje reconhecemos como matéria, paisagem, território, sociedade ou cultura.
É nesse sentido que a arqueologia de Neimar começa a se afastar da ideia convencional de arqueologia como simples recuperação de objetos antigos.
O vestígio passa a ser compreendido como uma relação: entre matéria e tempo, entre corpo e território, entre água e ocupação humana, entre memória e paisagem.
“O sítio arqueológico não está separado do observador. Ele também ressoa com quem o observa.”
O contato com a geologia de Marcelo Guimarães e com a chamada escola da biomassa abriu uma primeira perspectiva sobre a constituição material da Terra.
Ao ingressar na UFMG, a investigação passou a incorporar sociedade, cultura, território e formas de organização humana.
A arqueologia tornou possível aproximar matéria, técnica, temporalidade, ocupação territorial e produção cultural.
A câmera tornou-se instrumento de observação e registro, transformando a própria linguagem audiovisual em ferramenta de investigação.
O estudo das tecnologias de pedra aproximou o pesquisador da relação entre gesto, matéria, ferramenta e inteligência humana.
A construção profissional de pífanos e quenas introduziu outra dimensão: a arqueologia experimental do som.
Na experiência universitária, Neimar encontrou na arqueologia uma das possibilidades mais amplas de investigação humana. Fotografia, cinema, agricultura, tecnologias tradicionais, paisagens e antigas tecnologias líticas podiam coexistir dentro de um mesmo campo de pesquisa.
A presença da tradição francesa na arqueologia brasileira, especialmente no ambiente acadêmico da UFMG, foi importante para a formação desse olhar.
O trabalho de André Prous e a arqueologia experimental representaram uma experiência particularmente significativa: estudantes podiam experimentar a fabricação de instrumentos utilizando técnicas de lascamento da pedra.
Essa experiência contém uma consequência metodológica profunda:o passado pode ser investigado também através do refazimento do gesto.
O vestígio deixa de ser somente algo encontrado. Pode também ser algo reconstruído experimentalmente.
A construção profissional de instrumentos musicais tornou-se parte da própria investigação arqueológica.
Pífanos e quenas não são apenas objetos musicais. São relações entre matéria, ar, corpo, acústica, técnica e território.
Essa experiência contribuiu para uma hipótese mais ampla: compreender sociedades antigas exige investigar também aquilo que produzia som, ritmo, comunicação e experiência coletiva.
Nesse percurso aparece ainda uma investigação sobre a possível existência de um instrumento musical de escala monumental, apontamento que permanece como questão investigativa e que necessita de pesquisa arqueológica específica para sua confirmação ou refutação.
O primeiro projeto documental de Neimar nasceu dessa experiência arqueológica. A investigação buscava as memórias e os vestígios relacionados à construção de espaços de conhecimento dentro da UFMG e da metrópole contemporânea.
A presença do artista popular Seu Agostinho tornou-se mediadora de uma arqueologia urbana na qual música, construção, memória e cidade se encontravam.
Um dos procedimentos experimentais aproximava os sons produzidos por Hermeto Pascoal aos sons de pássaros e aos ruídos dos canteiros de obras.
ASSISTIR FRAGMENTO →A trajetória audiovisual de Neimar aproximou a arqueologia de comunidades, movimentos sociais e territórios historicamente marginalizados.
O Centro-Oeste brasileiro e Minas Gerais aparecem como espaços importantes dessa experiência, incluindo trabalhos e projetos relacionados a comunidades quilombolas de Goiás e Minas Gerais.
Nessa perspectiva, a câmera não funciona somente como dispositivo de documentação. Ela se torna uma forma de aproximação territorial.
Também integra essa trajetória um projeto cinematográfico sobre a Estrada Real entre Minas Gerais e Rio de Janeiro, investigando historicamente caminhos associados à circulação, mineração, comércio e contrabando durante o período colonial e imperial.
A estrada também pode ser um sítio arqueológico. O caminho guarda aquilo que passou por ele.
Durante a trajetória de pesquisa, a arqueologia encontra a permacultura.
Surge então a formulação da Permacultura Simbiótica, associada aos experimentos dos Tratados Brigadistas para Design Permacultura.
O interesse desloca-se do estudo de assentamentos passados para a possibilidade de conceber novas formas de assentamento.
Nesse movimento, a arqueologia deixa de ser somente retrospectiva.
Ela passa a perguntar como os seres humanos podem produzir territórios futuros capazes de reconhecer água, solo, vegetação, animais, memória e ancestralidade como componentes de um mesmo sistema.
Uma arqueologia do futuro começa quando o assentamento deixa de ser separado do território que o sustenta.
O Projeto MISSA — Museu da Imagem e do Som, voltado a pequenas cidades brasileiras — amplia a arqueologia para o campo da memória audiovisual.
A pesquisa para criação de museus da imagem e do som em diferentes territórios torna possível reunir fotografia, cinema, memória oral, paisagem, documentação e participação comunitária.
Nesse processo surgiram apontamentos que passaram a dialogar diretamente com a pesquisa arqueológica de Neimar.
Estruturas parcialmente enterradas investigadas no território da Costa do Descobrimento.
Grandes estruturas observadas através de imagens e investigações espaciais nos vales Mutari, Jaqueira e Buranhém.
Uma suspeição arqueológica sobre uma possível estrutura musical de escala excepcional.
A fotografia e o cinema como formas de produzir e preservar evidências territoriais.
Há anos Neimar olha para a Amazônia a partir do Centro-Oeste. Ainda sem ter realizado uma expedição a Santarém, a investigação começou pelas imagens, pelos rios e pela cartografia.
Santarém, no Pará, é reconhecida pela importante recorrência de sítios arqueológicos, incluindo as chamadas Terras Pretas Arqueológicas e conjuntos cerâmicos associados à chamada Cultura Santarém.
A partir de imagens de satélite, Neimar passou a formular uma hipótese investigativa própria: algumas formas presentes na paisagem poderiam corresponder a estruturas arqueológicas de grande escala, inclusive possíveis formas monumentais.
Possíveis estruturas monumentais identificáveis por sensoriamento remoto na região de Santarém.
Apontamento exploratório. A interpretação de imagens de satélite não substitui prospecção, escavação, datação e análise arqueológica de campo.A intenção declarada por Neimar é investigar especialmente áreas de erosão da Serra de Piraoca, onde processos naturais podem eventualmente expor camadas arqueológicas.
Em 2006, Neimar concebeu o projeto Rota do Sal, imaginando uma navegação entre Goiás e Belém do Pará pelo Rio Tocantins.
O projeto buscava investigar a possibilidade de antigas rotas de circulação relacionadas a comunidades quilombolas, rios, comércio e intercâmbios territoriais.
A hipótese de uma antiga circulação entre as terras altas do Centro-Oeste e a bacia amazônica constitui uma linha de pesquisa que exigiria trabalho arqueológico, histórico, etno-histórico, geográfico e antropológico integrado.
O projeto cinematográfico foi posteriormente reformulado e passou a receber o título Uma Palavra Sobre o Rio Desce, poema concebido como epílogo da proposta original.
O rio deixa de ser uma fronteira. Torna-se uma linha de conexão entre territórios.
A investigação de Neimar também se aproxima de questões controversas sobre a antiguidade da presença humana nas Américas.
A ideia de uma presença humana muito antiga no continente americano é objeto de debate científico e depende da avaliação rigorosa de evidências arqueológicas, paleontológicas, cronológicas e genéticas.
Para a arqueologia vetorialética, entretanto, a própria existência dessas controvérsias é significativa: ela mostra que os modelos de ocupação humana podem ser continuamente testados por novas evidências.
A experiência com comunidades quilombolas do Centro-Oeste e de Minas Gerais também introduziu uma dimensão fundamental:a memória de um território não está necessariamente contida apenas nos arquivos escritos.
Narrativas de ancestralidade, deslocamentos, rios, montanhas, estrelas e lugares sagrados podem constituir fontes importantes para formular perguntas de pesquisa, desde que sejam tratadas com respeito às comunidades e distinguidas de evidências arqueológicas independentes.
A arqueologia de Neimar não pretende estabelecer uma linha reta entre passado e presente.
Sua proposta é trabalhar com camadas simultâneas de informação: vestígios materiais, imagens, narrativas, paisagens, tecnologias, sons, rios, formas geométricas e relações ecológicas.
É nesse contexto que aparecem diferentes denominações para esse campo: Republicanta, 7ª República, Arqueologia Simbiótica e Arqueologia Cosmológica Nuvem.
Os nomes são diferentes tentativas de descrever uma mesma transformação metodológica: abandonar tanto uma arqueologia fragmentada quanto uma arqueologia rigidamente linear e observar as relações entre diferentes escalas temporais e territoriais.
A arqueologia constitui uma das raízes da Vetorialética porque ensinou a Neimar uma operação fundamental: escutar relações antes de interpretar objetos.
O objeto arqueológico possui uma posição. O território possui uma história. O observador possui uma posição. A investigação nasce da relação entre essas posições.
Nesse sentido, a arqueologia não aparece como uma etapa abandonada da trajetória de Neimar Alves Barroso. Ela permanece como uma das bases investigativas da Vetorialética.
Geologia, Ciências Sociais, Arqueologia, antropologia, tecnologias líticas e arqueologia experimental.
Investigação cinematográfica de caminhos históricos, circulação e formação territorial.
Experiências audiovisuais e investigação de memória, território e ancestralidade.
Paleoembarcações, traçados monumentais e arqueologia da paisagem.
Rio Tocantins, navegação, Centro-Oeste e Foz Amazônica como hipótese de conexão territorial.
Observação exploratória de possíveis estruturas arqueológicas através de imagens de satélite.
Os apontamentos apresentados nesta página representam linhas de investigação, observações de campo, interpretações de imagens, experiências audiovisuais e hipóteses formuladas por Neimar. Sua transformação em conhecimento arqueológico consolidado depende de pesquisa de campo, documentação, comparação, análise laboratorial, cronologia e avaliação crítica por especialistas e pelas comunidades envolvidas.
A força da proposta está justamente em transformar aquilo que foi observado em pergunta verificável.